Agnetha e Frida sendo entrevistadas nos intervalos das sessões de gravação do álbum Gracias Por La Música. Elas falam sobre a pressão que vem junto com o fato de fazer parte do ABBA. O artigo foi publicado na revista feminina holandesa Viva em março de 1980.
Um almoço com as cantoras do ABBA, Anni-Frid e Agnetha — esse é o furo mundial que John McFarlane, colaborador da Viva, conseguiu em Estocolmo, para o seu próprio espanto. Há vários anos as duas cantoras não apareciam em coletivas de imprensa, muito menos cogitavam dar uma entrevista. Escaldados por histórias inventadas ou declarações drasticamente distorcidas, a gerência do ABBA decidiu que, a partir de então, apenas Björn e Benny enfrentariam o exército de jornalistas. Mesmo na América, que precisava ser conquistada urgentemente pelo quarteto sueco, as cantoras ficaram de fora.
E agora este almoço, junto com alguns técnicos e uma equipe argentina de intérpretes, convocada para dar suporte com um álbum em espanhol.
Anni-Frid: “Bom almoço, ouvimos dizer que você é de confiança. Estamos de saco cheio de todas essas histórias inventadas. Recentemente, cheguei a procurar uma equipe de redação sueca para pedir que finalmente parassem de assediar Agnetha com o seu divórcio. Estamos fartas de tudo isso, precisamos de paz e sossego, especialmente em um momento difícil como este. Além do mais, eu mesma já estou farta de perguntas estúpidas como ‘como você aplica sua maquiagem, por que você usa esse corte de cabelo’, como se o exterior fosse a única coisa que importasse. Eles se esquecem de me ver como uma mulher que dá o seu melhor no palco e que tenta exatamente esquecer todos os problemas privados naquele momento. Que nos façam perguntas sobre a música e nos julguem por essas qualidades. Não somos uma máquina, mas quatro pessoas comuns que venceram na vida trabalhando muito duro e que, enquanto isso, levam alegria para outras pessoas.”
Até agora, elas sempre se mantiveram em silêncio. Anni-Frid e Agnetha, as duas mulheres do ABBA, sempre deixaram a publicidade para “os rapazes”. A Viva ainda assim teve a oportunidade de conversar com elas. Essa conversa não se revelou tão esperançosa para os inúmeros fãs do quarteto sueco. Porque o ABBA está começando a ficar cansado disso. “Os momentos em que estou de saco cheio estão ficando mais frequentes”, diz Anni-Frid.
Apenas um dia normal de trabalho em Estocolmo. Do lado de fora, faz frio e a neve está sendo removida. Do lado de dentro, a atmosfera está chegando ao ponto de ebulição. Lá, atrás do vidro à prova de som do estúdio de gravação da Polar Music, as cantoras do ABBA, Anni-Frid e Agnetha, estão tentando gravar a faixa de áudio de um álbum em espanhol. Isso significa simplesmente: cantou desafinado? Pára. De novo. Pronúncia errada? Pára. De novo. Não começaram simultaneamente? Pára. De novo. Então, há muitos suspiros, resmungos e xingamentos acontecendo. A humilhação de duas estrelas mundiais? Por um momento, elas aparentemente sentem as coisas assim. Então, recusam-se a continuar até que todos os espectadores indesejados sejam retirados. Atrás da mesa de som, o técnico restante, Michael Tretow, sorri: “Não é maravilhoso trabalhar com perfeccionistas assim?”. Mas Anni-Frid confessa mais tarde: “Esses são os momentos em que fico de saco cheio. E, para ser sincera, eles estão ficando mais frequentes...”
O fim da era ABBA está à vista? Não está claro que esses quatro artistas suecos também vão desabar sob o peso da fama mundial? Durante o almoço, o rosto frequentemente sorridente de Anni-Frid fica sério diante dessas perguntas. “Você quer uma resposta honesta? A questão é se seremos capazes de parar. Acho que nós quatro ainda gostamos do que estamos fazendo, mas achamos cada vez mais difícil ser o ABBA. Estamos no negócio da música há quinze anos. Como ABBA, estamos no topo há seis anos. E, todas as vezes, temos que corresponder às expectativas. Aos poucos, temos que tomar cuidado para não começarmos a nos repetir. Mas é muito difícil ter novas ideias constantemente. Temos que continuar nos desenvolvendo e só podemos fazer isso quando temos um objetivo claro. Bem, esse é o nosso problema. Não somos mais aquele grupo jovem e cheio de glitter que éramos há seis anos. Enquanto isso, passamos por muita coisa. Como mulheres, amadurecemos, nos desenvolvemos e, especialmente, envelhecemos também. Olhamos para a vida de uma forma diferente e, então, torna-se menos divertido ser o ABBA. Porque, na verdade, temos que nos desligar de nós mesmas para isso. Porque somos ‘propriedade’ de tantos milhões.”
Agnetha entra na conversa: “Pense no Benny e no Björn. Eles sabem que estamos ralando aqui e gostariam de ajudar, mas não é sem motivo que estão longe, em Barbados. O que eles chamam de relaxar, na verdade é pensar e conversar sobre novas ideias a cada segundo. Aqueles dois têm que garantir que a nossa fonte não seque. A existência do grupo depende da criatividade deles. Essa responsabilidade pelo nosso repertório nunca e em lugar nenhum os deixa em paz. E nós só temos que sentar e esperar para ver se realmente haverá algo novo ou se veremos a fonte secar amanhã. Há uma pressão tremenda sobre os dois.”
Em seguida, o empresário Stig Anderson sublinha o quão pesada é essa pressão com alguns dados estatísticos. Fumando sem parar, ele menciona: “No ano passado, tivemos um faturamento de setenta milhões. Isso significa um lucro de trinta milhões de florins holandeses. Ainda estamos crescendo, principalmente porque também investimos com sucesso. Dizem que o ABBA é o segundo maior produto de exportação da Suécia, mas também somos donos da terceira maior galeria de arte da Europa, de uma fábrica de bicicletas e, recentemente, compramos uma empresa que aluga escritórios e edifícios. Isso sem mencionar a nossa própria empresa, a ‘fábrica ABBA’ e editora musical. Então não é tão estranho que guardemos nossos discos de ouro escondidos no porão. Isso é notícia de ontem. O que importa é o amanhã. E o depois de amanhã.”
Agnetha: “Por enquanto, teremos que arcar com as consequências da profissão que escolhemos. Esse senso de responsabilidade nos mantém firmes. O público nem sempre percebe isso. Eles nos veem como quatro personagens glamorosos no palco: música impecável, vozes bonitas, show sexy. Muitas pessoas pensam que depois nós vamos para algum tipo de mundo de conto de fadas até a próxima vez. Esquecem-se das viagens, das horas passadas no estúdio em gravações, ensaiando, indo para a cama às três da manhã e levantando às sete, fazendo e desfazendo malas, ficando longe de casa por semanas. Isso é apenas trabalho duro e puro. Claro que ganhamos somas enormes de dinheiro, mas também vivemos sob uma pressão enorme. Como qualquer outro ser humano, tenho esses momentos em que estou cansada de tudo. Há shows em que sinto que não me entreguei completamente e me culpo por isso. Aí os outros podem falar o quanto quiserem, mas não me convencem. Nessas horas fico tão decepcionada comigo mesma que fico deprimida. Sempre termina em crises terríveis de choro. Nesses momentos eu penso: agora chega, não vou mais fazer isso.”
Anni-Frid: “As turnês são a pior parte, percebemos isso novamente há pouco tempo. É justamente em uma turnê assim que sentimos a pressão dessa enorme responsabilidade. Como somos o ABBA, tudo tem que ser perfeito. Exige um esforço enorme, mental e físico. É mais fácil de digerir para os homens do que para as mulheres. Pense no nosso período menstrual em uma turnê dessas. Acho que é a pior coisa que pode me acontecer, porque não importa o que aconteça, tenho que subir no palco, sorrindo e rebolando. O ritmo em que se vive é assustador. Você fica completamente carregada e não tem a chance de relaxar. Quase nunca tiramos tempo para beber algo tranquilas depois. E, no fundo da mente, você obviamente também está preocupada com o que está acontecendo em casa, o medo de que algo possa acontecer com as crianças, não importa o quão bem protegidas nossas casas estejam por sistemas de alarme. Conclusão: depois de uma turnê dessas estamos completamente exaustas e há momentos em que dizemos em voz alta: pessoal, vamos parar por aqui...?”
Rapidamente, ela acrescenta: “Isso não tem nada a ver com tensões internas. Claro que elas ocorrem, mas também são resolvidas muito rapidamente. Exige muito tempo e é muito caro para nós passarmos o tempo discutindo. Talvez sejamos profissionais demais para isso, não importa o que a imprensa escreva sobre nós.”
Relações internas abaladas poderiam eventualmente levar ao fim. Previamente, havíamos concordado com a dupla que não falaríamos sobre a questão privada do casamento fracassado entre Björn e Agnetha. Mas Graham Jackson, o professor de dança do grupo, nos tinha dito de antemão: “Ultimamente, a Agnetha simplesmente não está muito bem, não sei se ela vai aguentar por muito mais tempo. Desde o divórcio, ela não tem mais muita vontade. Por um tempo, ela esteve muito deprimida. Está me custando muito esforço trazer a autoconfiança dela, que sofreu um golpe severo, de volta ao nível antigo.”
Quando questionada especificamente sobre isso, Anni-Frid parece muito mais otimista: “Agnetha e eu fomos independentes demais desde muito jovens para não sermos capazes de lidar com tempos difíceis. Também encontramos muito apoio uma na outra. Claro, nós duas dependemos das pessoas com quem trabalhamos, mas seríamos capazes de nos virar como mulheres sozinhas. Desde o divórcio, Agnetha vive sozinha com os filhos. Obviamente, ela não precisa se preocupar com nada financeiramente falando. Mas esse forte senso de responsabilidade que ela tem por nós como grupo também está desempenhando um papel em sua vida privada. Ela é muito forte, uma verdadeira sobrevivente. Ela definitivamente não vai se sentar em desespero. Na verdade, isso vale para nós quatro, caso contrário o ABBA já teria deixado de existir há muito tempo.”
Quando Agnetha ouve essas últimas palavras, ela confessa: “Sempre quis ser veterinária. Sou louca por animais. Agora provavelmente é tarde demais, embora...?”
O laboratório do ABBA
O som distinto do ABBA se origina no ‘laboratório de som’ de Michael B. Tretow. Ele explica: “Foi em 1970. Enquanto afinava uma guitarra de doze cordas, tive a ideia de copiar aquele som pesado e encorpado de uma guitarra dessas em um piano velho. Oferecia um som majestoso. Fiz algumas gravações e continuei fazendo over-dubbing no piano, até ter o som de cinquenta pianos ao mesmo tempo. Com Benny e Björn, começamos a experimentar com outros instrumentos. Ainda hoje, os dois rapazes vêm ao estúdio sozinhos para gravar a faixa de acompanhamento. Muitas vezes, Agnetha e Anni-Frid entram no estúdio sem ter a menor pista do que Björn e Benny produziram. Isso se deve ao fato de irmos ao estúdio imediatamente para experimentar quando eles de repente têm uma ideia. Quando uma música é montada, as garotas entram para gravar os vocais depois de ouvi-la algumas vezes. Pode parecer desordenado para um grupo tão profissional, mas funciona perfeitamente.”
Fonte: ABBA The Articles Blog



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