sábado, 15 de setembro de 2012

Livros brasileiros sobre o ABBA


Este ano um fato raríssimo aconteceu no Brasil, no que diz respeito ao ABBA. Os admiradores brasileiros do grupo já estão acostumados à escassez de revistas, livros ou mesmo matérias dedicadas ao grupo, ao contrário do que ocorre na Europa. Mas eis que este segundo semestre surpreendeu os fãs brasileiros com duas publicações: o livro ABBA – O que há por trás de cada canção (Ed. Lafonte) e a revista ABBA – Quando a vida é uma festa! (Ed. Escala), ambas do grupo editorial Larousse. O livro é do inglês Robert Scott (pseudônimo do jornalista Chris Roberts), com tradução de Marcia Amorim. A revista é uma versão do mesmo livro, só muda o formato.


Foram pouquíssimas as revistas nacionais dedicadas ao ABBA. A extinta Somtrês, especializada em equipamentos de áudio e música em geral (foi a primeira revista do gênero no Brasil) lançou uma edição especial sobre o ABBA em 1983. Uma revista-pôster gigante, com muitas fotos do grupo, toda sua trajetória e discografia – dadas as limitações daquele tempo, claro. Mas foi um projeto ousado por se tratar de uma banda cuja biografia, naquela época, era quase desconhecida no Brasil.

Quase 20 anos depois uma obscura revista chamada DVD World lançou uma edição também dedicada ao ABBA. Com informações visivelmente transcritas de sites superficiais, texto pobre e diagramação primária, a publicação chamou a atenção não pelo conteúdo, mas por estampar o ABBA na capa, fato quase inédito no Brasil. A intenção aqui não é criticar a tal revista. Afinal, qualquer iniciativa de divulgar o ABBA para os brasileiros é bem-vinda, ainda que seja de forma amadorística.

De vez em quando aparece uma matéria aqui, outra ali. Todas bem genéricas e superficiais, salvo raras exceções. A imprensa no Brasil tem um certo receio de se aventurar pelo universo do ABBA por desconhecer a história do grupo e por preguiça de pesquisar. Um dos motivos que me fizeram escrever meu primeiro livro sobre o grupo, Made in Suécia – O paraíso pop do ABBA (Ed. Página Nova, 2008), foi justamente esse. Em pleno século 21, achava uma vergonha que nossos jornais e revistas ainda se referissem ao ABBA de maneira caricata. Confesso que fiquei espantando por ter sido o primeiro e único brasileiro – até o presente momento – a se interessar pelo registro, em língua portuguesa, da história do ABBA.

Não que outros não sejam capazes. Conheço pelo menos mais meia dúzia de fãs brasileiros do ABBA com conhecimento, interesse e material suficientes para escrever uma ótima biografia do grupo. Mas a falta de espaço em nosso mercado e as dificuldades e limitações de acesso a fontes confiáveis, além dos percalços financeiros, talvez tenham desestimulado outros antes de mim. E eu só consegui transformar meu sonho em realidade graças à confiança e ao apoio do Sandro Bier, responsável pela Editora Página Nova. E o sonho saiu do papel e foi parar nas livrarias.


Apesar do trabalho quase artesanal, posso dizer – sem falsa modéstia – que me orgulho muito desse livro. Ainda que o mercado brasileiro não demonstre interesse ávido por uma biografia do ABBA, Made in Suécia foi bem recebido e ganhou até elogios da revista Rolling Stone.

Há um ano, com meu segundo livro, Mamma Mia! (Panda Books, 2011), pude atualizar e lapidar ainda mais as informações sobre o grupo, desta vez dando também enfoque ao sucesso da peça e do filme Mamma Mia!. A aposta, dessa vez, veio do Marcelo Duarte, conhecido jornalista e fundador da Panda Books, também autor da série de livros O Guia dos Curiosos (com mais de 190 mil exemplares vendidos).

Voltemos agora ao assunto deste post: o lançamento de ABBA – O que há por trás de cada canção. É a primeira vez que um livro sobre o ABBA é traduzido para o português e lançado aqui no Brasil. Não podemos deixar de bater palmas. O curioso foi a escolha, pois este não é o melhor livro sobre o ABBA. Para começo de conversa, ele não conta “o que há por trás de cada canção”, como aparece escrito na capa. Trata-se, na verdade, da opinião pessoal do autor, Robert Scott, sobre cada canção. As críticas são separadas por álbum, todos em ordem cronológica.


Antes de começar sua análise de cada canção, Scott fornece um leve background sobre os integrantes do ABBA, o que ajuda a situar o leitor ainda não familiarizado com a história do grupo. Como em tantos outros livros que se proclamam autoridades em matéria de ABBA, neste também há imprecisões e factoides já batidos. A tradução, cheia de deslizes, também não ajuda. Percebe-se facilmente que tradutora não tinha familiaridade alguma com o ABBA. Os nomes de canções em sueco foram traduzidos para o inglês, o que não faz sentido, já que se trata de um livro traduzido para o português. Só para citar rapidamente dois exemplos, Utan dej (“Sem você”) ficou “Without you”. Som jag är (“Como eu sou”) foi escrita de forma totalmente errada: Sam Jar Ag. Entre parênteses apareceu a tradução para o inglês (“On my own”), que também não corresponde à tradução do nome original em sueco.

É até compreensível, já que a língua sueca é complicada e pouco – ou nada – conhecida por brasileiros. Senti isso na pele quando escrevi meus livros. Pode-se até passar por cima desses detalhes sem que isso prejudique a leitura, mas coisas que dizem respeito diretamente às letras e canções do ABBA em inglês não deveriam conter erros de tradução. Um exemplo: na parte que fala de Two for the price of one, aparece o texto: “Esta é a história de uma faxineira que coloca um anúncio nos classificados de romance de uma revista (...)”. De onde a tradutora brasileira tirou que foi uma faxineira que colocou o anúncio? A letra diz que foi uma moça, Alice Whiting, mas em momento algum diz que ela era uma faxineira (!). É melhor deixarmos de lado as confusões da tradução, antes que este post fique ainda mais longo.

Apesar da tentativa de injetar humor em seu texto, o autor não soa muito espontâneo ou convincente. De fato, o tom do livro oscila estranhamente entre o deboche e a bajulação. O fato de evitar um tom mais “sério” até seria louvável se não fosse por um certo descaso aparente. O leitor fica com a impressão de que Scott passou os olhos em alguns artigos sobre o ABBA, mas não se aprofundou em textos mais precisos, como os encartes de CDs, por exemplo.

Ele chega até mesmo a se contradizer em algumas passagens. Em determinado ponto, reconhece a prudência na decisão de Benny em parar de escrever letras para as canções, já que seu forte eram as melodias. Em outro trecho Scott condena Benny por letras que nem sequer haviam sido compostas por ele. (Como todos os fãs do ABBA sabem, Björn sempre teve mais facilidade para escrever letras, razão pela qual assumia essa função).


E para não dizer que não fiz nenhum elogio ao livro, tenho que dar o braço a torcer: há uma verdadeira enxurrada de fotos do ABBA, de várias fases. A maioria delas já é bem conhecida, mas o livro também traz algumas raras, todas coloridas. Esse, aliás, foi um percalço que encontrei em meus dois livros: o preço da aquisição de direito para uso das fotos é altíssimo, fato que obrigou a mim e aos editores um número pequeno de fotos. No primeiro livro, consegui a colaboração de fãs que me cederam suas fotos originais. No segundo, algumas foram compradas e outras foram tiradas do meu próprio acervo. Em compensação, me aprofundei na pesquisa para contar a história do ABBA da forma mais fiel possível.

Pelo menos em matéria de fotos do ABBA, os fãs brasileiros não podem reclamar nem do livro e nem da revista. Ambos são riquíssimos nesse sentido. Mas a pergunta continua martelando em minha cabeça: se era para traduzir um livro sobre o ABBA, por que não escolheram um do Carl Magnus Palm? Sem sombra de dúvida ele pode ser considerado o biógrafo oficial do ABBA.


Infelizmente os livros de Palm nunca foram traduzidos para a língua portuguesa. Ele escreveu verdadeiras “bíblias” sobre o grupo, entre elas The Complete Recording Sessions (1994), Bright Lights, Dark Shadows (2001) e The Complete Guide to Their Music (2005), só para citar alguns. John Tobler também fez um excelente trabalho com ABBA Gold  The Complete Story (1993). Talvez porque esses livros, por serem impecáveis e muito completos, exigiriam não apenas uma tradução esmerada mas um trabalho de pesquisa detalhado e demorado.

O livro de Scott, por outro lado, não tem o compromisso de ser uma biografia 100% confiável e exata. Talvez por esse motivo a Editora Lafonte o tenha escolhido. Uma última curiosidade: pouco antes de lançar meu livro Mamma Mia! no ano passado, meu editor da Panda Books me enviou o livro de Scott para que eu desse uma lida e visse se havia algo de interessante ou relevante. Era o exemplar em inglês, pois essa edição brasileira ainda não havia sido lançada. Vi que o livro era de 2003, mas fora relançado em 2009 com outra capa, pegando carona no sucesso do filme Mamma Mia! Achei uma tremenda coincidência que tenham lançado essa edição em português justamente agora, um ano depois. O detalhe é que o enorme título original ABBA Thank you for the music – The stories behind every song foi encurtado em português, perdendo o Thank you for the music. Já a versão nacional em formato de revista recebeu o pouco apropriado título de ABBA – Quando a vida é uma festa! Seja como for, quem fez a festa foram os fãs brasileiros, que sentiram o gostinho de ver uma revista sobre o ABBA nas bancas, ainda que ela só tenha sido lançada em um número bem limitado de cidades.


Abaixo, os dados sobre a edição brasileira e as duas originais em inglês:

ABBA – O que há por trás de cada canção
Robert Scott
Lafonte-Larousse, 2012
242 páginas

ABBA Thank You for the Music - The stories behind every song
Robert Scott
Carlton Books, 2003

ABBA Thank You for the Music - The stories behind every song
(Includes all the songs from the hit movie Mamma Mia!) 
Robert Scott
Carlton Books, 2009

12 comments:

daniel lima disse...

como eu faço pra comprar esse revista . e verdade que vc falou o abba no brasil e pouco conhecido .

Daniel Couri disse...

A revista não foi distribuída no Brasil todo, apenas em algumas cidades, e em quantidade limitada. Eu mesmo não consegui achar aqui em Brasília, quem me mandou foi um amigo.

Carlos Nunes disse...

Daniel (Lima): se não encontrar em bancas, tente no site da editora: www.escala.com.br

Daniel (Couri): parabéns pela matéria! eu já estava estranhando ninguém ter falado nada sobre esse lançamento (eu mesmo não o fiz por falta de tempo...) Já tinha o livro original em inglês (ganhei de uma penpal inglesa, na época do lançamento) e quando vi a versão barsileira na livraria comprei imediatamente, sem associar as duas. Só quando cheguei em casa é que vi que já o possuía... Para piorar, alguns dias atrás encontrei a 'revista' na banca, lacrada e comprei, só percebendo que se trata de uma versão do livro quando abri o invólucro. Resumindo: tenho 3 vezes o mesmo livro (1 em inglês e 2 em português)...

Daniel Couri disse...

Que bom vê-lo por aqui, Carlos! É sempre uma honra ter seus comentários no blog :-)
Comigo aconteceu a mesma coisa: tenho 3 vezes o mesmo livro. Mas continuo achando que, se era para traduzir no Brasil um livro sobre o ABBA, podiam ter escolhido um do Carl Magnus Palm. Paciência...

Anônimo disse...

Achei a revista aqui em Ribeirão Preto na ÚLTIMA banca que procurei. Aliás nem fui eu que achei, e sim uma amiga. Foi engraçado quando as fãs de Rebeldes, One Direction e outras coisas passageiras viam que eu tinha uma revista do ABBA, tipo, "o grupo acaou há 30 anos meu Deus!", e eu respondia, "o nome disso é 'topo da cadeita musical'" XD. Mas, realmente, os erros de tradução e as informações sõa terríveis e tendenciosos demais. "Graças a Deus Björn parou de fazer os vocais", "é brega", madre de Deus, meu coração doía de ler aquilo! Tem que ter olho vivo pra ler... Quanto a não escolherem um do CMP, creio que o desinteresse do pessoal da Escala (como SEMPRE) ajudou muito para o... DESASTRE!

Pedro, Ribeirão Preto, 14.

Anônimo disse...

Há uns meses atrás, encontrei um CD do ABBA, o 18 Hits, empoeirado em um dos armários. Eu, convencida de que nunca tinha ouvido aquele CD na minha vida, resolvi usá-lo de 'trilha sonora' para a limpeza que estava prestes a fazer na minha casa. Coloquei o CD no rádio e comecei o trabalho. Porém, estava com aquela sensação de que conhecia bem aquelas faixas. Sentei-me no sofá e ouvi atentamente cada música, me convencendo cada vez mais de que era impossível nunca tê-las ouvido. Quando o CD chegava ao fim, eu colocava-o para tocar novamente. Fiquei assim o dia todo. Então, meu pai chegou em casa e se deparou comigo, agarrada com uma almofada, ouvindo pela -n-ésima vez, o mesmo CD. Sem contar nos inúmeros baldes e vassouras que encontrou espalhados pela casa, apenas aguardando a faxina (que não aconteceria naquele dia, obviamente).
Ele me perguntou se havia algo errado comigo. Eu respondi a pergunta lhe questionando sobre aquele CD. Ele me contou que colocava as músicas para que eu ouvisse quando ainda era criança, explicando assim aquela sensação que tive de já conhecer cada música. Bem, depois disso, comecei a procurar mais e mais CDs do ABBA, fiquei viciada nos acordes de cada instrumento (principalmente no piano), em cada música. Sempre que podia, passava em alguns sebos ou livrarias, atrás de mais CDs e DVDs. Posso dizer que, assim como foi para o Pedro, é engraçado ver a expressão de quem me encontra em uma livraria, com discos, livros e cds em baixo do braço, todos do ABBA. Meus amigos dizem 'NOSSA! Você gosta do ABBA? Nem meu pai gosta disso!' ou 'Quando você nasceu, o integrante mais novo já tinha 51 anos!'. Mas eu ignoro. O que importa é que, apesar de ter sido 'formado' há uns 40 anos, esse quarteto é mil vezes melhor que muita bandinha nova aí.
Os próximos itens que participarão da minha pequena coleção serão, com toda a certeza os seus dois livros ('Made in Suécia' e 'Mamma Mia!').
Espero que muita gente ainda se apaixone por ABBA, assim como eu me apaixonei (ou 'reapaixonei') no dia em que encontrei aquele CD empoeirado na estante.
Adorei o blog! Parabéns! Sucesso!

Rafaelle, Curitiba, 15. (:

Daniel Couri disse...

Rafaelle, muito obrigado pelo carinho e atenção que dedicou ao blog. Gostei muito do se relato e também passei por isso que você falou (das pessoas estranharem, fazerem piada). A diferença é que quando eu tinha 15 anos, a internet ainda era uma promessa para o futuro e conseguir qualquer material do ABBA no Brasil era dificílimo, quase impossível. (Aliás, foi isso que me motivou a escrever os livros). Depois que você ler algum deles (ou os dois), por favor me mande suas opiniões e críticas. Gosto de saber o que os leitores acharam. Mais uma vez obrigado e apareça sempre! :-)

Vitor Florenzano disse...

Daniel,

Primeiramente, parabéns pelo blog e pelo empenho em alimentar o carinho que temos pelo ABBA. Como algumas pessoas aqui mencionaram, muitos acham brega, dizem que já passou - para você ter ideia, minha tia de 58 anos e minha amiga de 50 me criticam dizendo que ABBA é coisa velha, rsrs - mas nada disso importa, porque a gente gosta e é isso que vale. Fora que a música boa é atemporal, acho que quanto a isso não há o que discutir.

Eu tenho 23 anos e sempre ouvi ABBA; desde pequeno gostava de algumas músicas, mas me ligava mais aos sucessos mesmo. Então, teve uma feira de vinil no Rio ano passado, e eu comprei uns 5 vinis do ABBA. Nossa, eu adorei. O The Visitors é fantástico, o Super Trouper tem letras que me envolvem bastante; cada álbum que ouvi até agora tem uma característica especial, para mim.

Eu gostaria de saber qual de seus dois livros você me indica. Eu não entendi muito bem se o segundo livro é uma versão lapidada do primeiro, ou se eles possuem conteúdo diferente. Também gostaria de saber qual é o melhor livro entre todos esses que dissecam cada música do ABBA, contando a história delas.

Mais uma vez, meus parabéns. Muito obrigado pelo blog.

Um abraço,
Vitor Florenzano

Daniel Couri disse...

Olá Vitor!

Tudo bem?
Primeiramente, seja bem-vindo!
Meu segundo livro tem mais informações que o primeiro (e mais atualizadas também). Por isso, se você busca informações detalhadas, indico o segundo ("Mamma Mia!") porque está mais atualizado, tanto a biografia quanto a discografia (e contém mais informações). Sobre os importados, os livros do Carl Magnus Palm são os melhores, sem sombra de dúvida. Se você lê inglês também, indico "Bright Light, Dark Shadows" (citados nesta matéria do blog). Qualquer coisa, é só falar. (Se tiver Facebook ou twitter, me adicione para trocarmos ideias. Abraço!)

Anônimo disse...

olá Daniel me chamo gabriel goulart ,é tenho 12 anos gosto muito do ABBA lhe mandei um comvite no facebook se possível me aceito obrigado.

FAN CLUBE DE VOLTA AOS VELHOS TEMPOS disse...

Gostaria de saber onde encontro a revista e também como adquirir o seu livro Mamma Mia. Tenho um acervo razoável do Abba em Video e CD'S...

Daniel Couri disse...

Olá amigo! A revista acho que você ainda encontra na Livraria Cultura. Meu livro ("Mamma Mia!") você pode encontrar nas livrarias convencionais ou então, pelo modo mais fácil e direto, pelo site da própria editora: https://pandabooks.websiteseguro.com/livro/445/mamma-mia.html

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