sexta-feira, 10 de julho de 2015

ABBA nas coleções do Reader's Digest

A revista americana Reader's Digest (no Brasil, Seleções), publicada em 35 línguas e distribuída em 120 países, foi, durante décadas, muito popular no mundo todo. Até hoje ela sobrevive bravamente nas bancas, com seus artigos, relatos, piadas e histórias. As variadas coleções de produtos lançados pela revista (romances, enciclopédias e discos) marcaram época. O ABBA não ficou de fora. 



Nos anos 80 e 90, o quarteto teve álbuns lançados sob o selo da Reader's Digest. Pelo menos duas caixas, lançadas na Europa, ficaram famosas: The Best Of ABBA - Reader's Digest (com 4 LPs, 1982), em Portugal, e uma versão maior, com 5 LPs, lançada na Grã-Bretanha. Eram vendidas em condições especiais para assinantes da revista e são, hoje, itens raros de colecionador. Anos depois, variações em K-7 e CD foram lançadas, além de outras coletâneas menores.

A versão portuguesa (4 LPs) e a versão britânica (5 LPs)
Em termos de novidade musical, as caixas do ABBA lançadas pela Reader's Digest não trouxeram nada de diferente. A vasta lista de músicas incluiu tanto os grandes sucessos quanto faixas menos conhecidas do grande público. Mas a embalagem era caprichada, sofisticada e bonita, bem ao estilo das coleções de LPs da revista.

Já no final dos anos 80 e começo dos 90, quando o compact disc chegou com tudo, a Reader's Digest lançou outras compilações do ABBA em CD. Muitos podem se questionar sobre o motivo de oferecer coletâneas tão parecidas em um espaço de tempo relativamente curto.

As razões variam bastante. Algumas vezes isso se dá por questões contratuais, outras por senso de oportunidade, como quando um selo adquire os direitos de lançamento de determinado catálogo musical. Outras vezes pode ser a tentativa de pegar carona em uma fase boa do artista, ou então o contrário, o cantor/grupo está meio sumido e a gravadora quer fazer um revival etc. Mas existe a velha razão, com a qual o mercado de discos ainda conta: muitos fãs se sentem tentados a comprar todas as coletâneas que aparecem, mesmo que elas não tragam nenhuma música inédita. Seja pelo layout da capa, pelo encarte, por uma faixa editada ou por alguma outra peculiaridade que represente um atrativo para um fã. Isso acaba gerando burburinho e estimulando o "colecionismo" entre eles.

Na seção "Discografia selecionada", do livro Mamma Mia!, questiono brevemente essa necessidade constante de novas coletâneas quando falo de ABBA - The Definitive Collection (2001):

Os nomes de coletâneas sempre falam em superlativos: "Greatest", "Best", "Very Best". Mas é um tanto quanto difícil justificar o lançamento de mais esta coletânea depois do sucesso esmagador de ABBA Gold e More ABBA Gold. (Mamma Mia!, Panda Books, 2011).

As pomposas coletâneas da Reader's Digest são apenas um exemplo desse nicho de mercado, por vezes repetitivo. Na história de sucesso do ABBA, existem vários outros exemplos de compilações com hits do grupo, mesmo que em muitos casos os álbuns misturem meia dúzia de sucessos com uma dezena de faixas menos expressivas. Para agradar ao fã, os organizadores de coletâneas buscam incluir ao menos uma ou duas canções "diferentes". Pode ser uma versão ao vivo, estendida, remixada ou até em outra língua. Qualquer dessas opções é válida para dar um certo ar de "novidade". Mas este é um assunto para os próximos posts.

Algumas das caixas e coletâneas famosas da Reader's Digest:

The Best of ABBA (Portugal, 1982)


The Best of ABBA (UK, 1982)



Versão em K-7 de The Best of ABBA (UK, 1982)

The Very Best of ABBA (UK, 1989)





The ABBA Collection (França, 1992)
The ABBA Collection (Alermanha, 1992)
The Ultimate Collection (UK, 2003)

The ABBA Collection (Canadá, 1992)
The ABBA Collection em K-7 (Austrália, 1993)


quinta-feira, 2 de julho de 2015

ABBA ao vivo, 35 anos depois

Que o ABBA nunca gostou de fazer turnês não é novidade para nenhum fã da banda. O negócio do grupo era mesmo o trabalho em estúdio, o processo de criação, composição e gravação das canções. Mas, durante os quase 10 anos em que esteve na ativa, o ABBA fez algumas turnês, sem nunca se preocupar muito com o lançamento de faixas ao vivo. Tanto que o primeiro álbum ao vivo só foi lançado anos depois do término da banda.



Uma das razões que Björn cita para essa relutância do grupo em fazer turnês é o perfeccionismo. Na opinião dele, a perfeição que ele e Benny sempre buscaram em estúdio era impossível de ser obtida no palco. Pode até ser, mas isso não diminui a curiosidade dos fãs em ouvir versões ao vivo. Aliás, elas não são perfeitas como as originais, mas a emoção e o entusiasmo do grupo compensam.

Em 1986, quando ABBA Live - primeiro disco "ao vivo" do quarteto - foi lançado, não causou impacto. Os tempos eram outros. O grupo já havia ficado no passado e seus ex-integrantes estavam envolvidos em trabalhos solo, bem distantes do ABBA.



ABBA Live é uma compilação de 15 canções gravadas ao vivo, durante a turnê de 1977 na Austrália, a turnê de 1979 em Londres, na Wembley Arena, e o especial de TV Dick Cavett Meets ABBA, de 1981. As canções foram costuradas pelas palmas e gritos da platéia, de modo que todas parecessem ter feito parte de um só show. "Eu particularmente detesto álbuns ao vivo", disse Björn. “É chato escutar 'reproduções' de músicas que soam muito melhores no estúdio... Mas as fitas estavam OK, aí apenas dissemos ‘Vão em frente e lancem então’. Não havia nada do que se envergonhar.”

Nenhum dos membros do ABBA se entusiasmaram com o projeto e, de fato, permaneceram indiferentes. A falta de interesse do mercado foi recíproca. O álbum foi lançado simultaneamente em CD e LP e, apesar de ter suprido a carência de material ao vivo da banda, Michael Tretow (engenheiro de som do ABBA) não gosta do ABBA Live. As canções receberam muito tratamento posterior em estúdio, para aumento da qualidade, e isso deu um ar frio às músicas, que perderam o sentimento de proximidade presente nos shows.

Com o passar dos anos e o crescente interesse pelo trabalho do grupo, a atitude geral em relação ao ABBA foi mudando gradualmente. Se nos anos 80, quando Live foi lançado, a moda era esnobar o ABBA, nos anos 2000 a atitude já era bem diferente. Após o reconhecimento do talento e da maestria do quarteto no cenário pop, principalmente depois do imenso sucesso mundial do musical Mamma Mia!, um álbum ao vivo do ABBA não parecia mais uma ideia sem interesse.

Em 2014, essa lacuna foi preenchida com o lançamento em CD e vinil de ABBA Live at Wembley Arena, um show inteiro do grupo, totalizando 25 faixas. A surpresa foi parte da comemoração dos 40 anos do ABBA, ano passado. E, de quebra, uma composição inédita de Agnetha, I'm Still Alive, que nunca havia sido oficialmente lançada, está entre as faixas gravadas ao vivo. Para quem nunca teve a chance de ver uma apresentação do grupo, o álbum é uma experiência rica. É a reprodução, na íntegra, de uma das noites em que o grupo tocou na Wembley Arena, em Londres, em novembro de 1979.



Björn garantiu que nenhuma correção foi feita para alterar o som do palco. Está tudo ali, do jeito que aconteceu durante o show, para que o público de hoje, ao ouvir, tenha uma noção exata de como soava um show ao vivo do ABBA. Chris Charlesworth, editor da Omnibus Press, que publicou o livro Bright Lights Dark Shadows - The Real Story Of ABBA, de Carl Magnus Palm, analisa: "Tocar seis noites seguidas em Wembley, naquela época, não era moleza. Não consigo me lembrar de outro artista que tenha feito tantos shows consecutivos naquele tempo. E na plateia estavam presentes, durante aquelas noites, roqueiros que já reconheciam que o ABBA devia ser levado a sério: membros do Led Zeppelin, Deep Purple e Moody Blues, para citar alguns. Até hipsters como Joe Strummer [vocalista e guitarrista da banda The Clash] foram vistos na area VIP dos shows do ABBA em Wembley."



Um fato interessante desse lançamento do ano passado: o produtor do Live at Wembley foi ninguém menos que Ludwig Andersson, 33 anos, filho de Benny. Ele explicou como encarou essa divertida – porém árdua – missão: "É uma coisa bem difícil de se fazer. Escutar seis shows idênticos, de seis noites diferentes, porque ele são iguais, de várias maneiras. E depois de um tempo você acaba se perguntando se seu julgamento está correto – quem pode dizer qual é melhor que o outro? Então procurei basear meu julgamento no meu feeling."




"Minha ideia era que seria bacana mostrar o registro de uma noite de show do ABBA, na íntegra, para todos que não estiveram lá", explica Ludwig. E ele se inclui nessa turma. "Fiz isso por mim", porque eu não era nascido naquele tempo. Então nunca cheguei a ter acesso a isso. Por isso fiz tudo para poder ouvir o material ao vivo como ele foi apresentado naquela época."

Uma pergunta curiosa: será que Ludwig passou por uma fase na adolescência em que chegou a odiar a música de seu pai? A resposta foi dada ao repvrter Craig McLean, do jornal inglês The Telegraph, a quem Ludwig concedeu a entrevista: "Não!", respondeu ele, bem-humorado. "Nunca senti nada do tipo ‘oh, meu pai faz uma coisa diferente do que fazem os outros pais, que saem para o trabalho e voltam à noite.’ Meu pai ia para o estúdio e os pais dos meus amigos iam para o escritório."

Ludwig e o pai Benny Andersson
Valeu a pena esperar 35 anos para que esse album fosse lançado. Mais do que a prova de que o ABBA tinha, de fato, energia para animar uma plateia ao vivo, Live at Wembley Arena é um registro histórico e fiel de uma época em que o ABBA reinava como o grande grupo pop da década de 1970.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Björn fala sobre novos projetos e o cenário atual da música

Björn Ulvaeus foi um dos vários convidados da Brilliant Minds, conferência sobre música, tecnologia, criatividade e inovação que aconteceu em Estocolmo, a "capital criativa do mundo", de 8 a 13 de junho deste ano.


Fundado pelos empresários Ash Pournouri e Daniel Ek (diretor executivo da Spotify, serviço de música comercial em streaming), o simpósio reuniu alguns dos mais inovadores artistas, músicos, políticos e empresários do mundo.

Além de ex-integrante do ABBA e um dos maiores compositores contemporâneos, Björn é destaque no mundo de hoje como um bem sucedido empresário, graças ao sucesso global do musical Mamma Mia!, que já faturou mais de U$ 2 bilhões em mais de 40 países e foi visto por mais de 55 milhões de pessoas ao redor do mundo. Björn conversou com o jornalista Andrew Hampp, em Estocolmo, durante a Brilliant Minds. 

O Museu do ABBA já existe há dois anos. Houve algum tipo de resistência a se tornar parte de algo assim, já que todos os quatro membros do ABBA continuam vivos?
Pode apostar! (risos) Foi meio estranho fazer parte do seu próprio museu, por isso houve muita resistência da minha parte e dos outros três também. Mas a cidade queria muito e a ideia parecia algo muito bom para Estocolmo. E eu topo tudo que seja bom para Estocolmo. Então acabamos dizendo sim sem pensar muito a respeito. Mas de repente tudo se tornou muito real quando disseram “Temos esse prédio, está sendo construído agora em Djurgården, o lugar perfeito pra ele, mas sei que é muito perto da sua casa."


E também me dei conta do seguinte: como seria se eu tivesse que ouvir comentários sobre o museu, do tipo "não é grande coisa, né?" ou "eu esperava mais dele". Porque eu não ouviria isso só por um ano, mas para o resto da minha vida. E foi quando decidi me envolver pessoalmente no projeto. E não foi tão dificil como pensei, porque assim que comecei a botar a mão na massa, comecei a me ver como uma figura histórica da música pop, o cara dos anos 70 com as roupas engraçadas, e dali em diante, contei a história dele. Bem distanciado de quem eu sou hoje. Então foi uma forma de me libertar disso. E depois tudo passou a ser só prazer, na verdade. Quisemos dar um senso de honra, mostrar que não estávamos nos levando tão a sério assim, mas com entusiasmo, um pouco de analógico misturado ao digital. Mas teve um efeito de proximidade para as pessoas. Os estrangeiros nos veem como algo além do céu. E quando você anda pelo museu, tem a chance de ver como nosso começo foi humilde, bem pé no chão, e eu queria que as pessoas tivessem esse sentimento.


O que foi mais gratificante após a inauguração do museu e do Music Hall of Fame sueco?
Acho que a parte mais gratificante será talvez no futuro, quando o local se tornar a House of Music da Suécia. Está prestes a virar, mas queremos que seja a manifestação física da celebração da música da Suécia, qualquer que seja ela. É nisso que estou trabalhando no momento, para que talvez, no próximo ano, se houver seminários ou conferências, eles possam ser feitos nessa espécie de casa da música de Estocolmo. Vamos ver. Também é muito gratificante saber o quanto as pessoas curtem o museu. Nunca ouvi nennhum comentário de insatisfação. 

Hoje você fez a abertura do Brilliant Minds, simpósio que celebra os empreendedores suecos. Quando estava formando o ABBA, no começo dos anos 70, época em que a música sueca não tinha a menor relevância no cenário mundial, já se sentia um empreendedor?
Não, nem um pouco. Quando desfizemos o grupo, em 1982, pensei que tudo terminaria ali. Nunca passou pela minha cabeça, entende? Era tão distante do que pensávamos na época, que estaríamos sentados aqui falando disso. Mas acho que existe algum verdade nisso - que, antes do ABBA, não havia nada. 

Bonecos do ABBA, em tamanho real, no museu do grupo
Que um selo musical americano, por exemplo, viria até a Suécia para ouvir algo feito aqui,era totalmente impossível. E agora é completamente diferente. Acho que tivemos algo a ver com isso. É claro que houve outras pessoas ao longo das décadas seguintes. Mas muita gente viu que era  possível que compositores, cantores e produtores suecos fizessem sucesso fora da Suécia. Porque a mentalidade era 'não vale a pena nem tentar, é impossível'. E isso mudou, e sempre muda quando se tem um modelo que abre caminho. Então tenho muito orgulho disso.

E existem artistas ou produtores suecos, hoje, que você sente que carregam o legado deixado pelo ABBA?
De certa forma, Max Martin, claro. E também varios compositores - eles têm uma maneira diferente de compor hoje em dia, mas ainda assim são compositores que fazem parte da cena musical atual, como fazíamos nos 70. E outros continuarão.


Você ainda compõe?
Eu e Benny [Andersson] ainda escrevemos uma ou outra canção sim. É que, depois do ABBA, escrevemos mais musicais do que canções soltas. Pode ser que ainda tenhamos outro musical em nós, nunca se sabe. Após o ABBA, escrevemos Chess, que tinha One Night In Bangkok, e depois escrevemos mais uns dois musicais - Mamma Mia!, claro. E falando em Mamma Mia!, estou envolvido em um projeto muito interessante. Tem uma area de diversões em Estocolmo chamada Gröna Lund, onde há um antigo restaurante [Tyrol] que estamos transformando em uma espécie de taberna grega. Assim como no Mamma Mia!, em que há uma grande festa de casamento no final, quero recriar aquele tipo de clima alegre enquanto as pessoas se divertem comendo e bebendo. Elas estarão dentro de uma história em tempo real. Não se trata de Mamma Mia! 2, é totalmente diferente, mas é contado do mesmo jeito e é meio interativo. Por isso é Mamma Mia! The Party, que vai ser inaugurado em Estocolmo, em janeiro.


E com certeza você viu a reação das pessoas quando anunciou o projeto na internet, todos dizendo "Uau, será que vai ser finalmente a renunião do ABBA?". Você esperava esse tipo de especulação?
Bem, não sei se essas especulações vão ter fim um dia (risos). Mas é bom ser o único grupo que nunca se reuniu de novo. Porque acho que somos, em tese, o único conjunto que poderia ter voltado e nunca quis.

Você vê grupos como os Rolling Stones e The Who hoje e pensa "Não quero voltar a fazer turnês"?
Pode apostar. Sempre vejo como estou contente por não ter que estar lá. Mas para esses outros artistas, isso se tornou um estilo de vida, creio. Porque nunca fomos de fazer muitas turnês, na verdade. Passamos, no total, uns 6 meses em turnê, em um período de 10 anos. Para nós, tunrês não significavam nada. Sinto um enorme alívio por não ter que pensar nisso. Posso pegar meu barco essa tarde para passear pelo arquipélago... é maravilhoso.

Com certeza você reconhece a importância de ter documentado aqueles poucos shows ao vivo que fizeram. O ABBA também gravou mais de uma dúzia de clipes musicais, bem antes do surgimento da MTV.
Sim, mas fazer turnê era algo que nunca gostamos. Era como reproduzir algo que já tínhamos feito. Eu estava sempre tão focado nas próximas gravações que, depois de alguns shows, cantar as anteriores se tornava bem chato. 

Com Mamma Mia! encerrando sua temporada na Broadway, em setembro, Mamma Mia! The Party é uma espécie de continuação do musical pra você?
Poderia até ser o próximo capítulo, mas não tem nada a ver com o encerramento do musical na Broadway. Mas se o projeto funcionar, não vejo por que não poderíamos levá-lo a outros lugares. Vamos ver. Mas é uma experiência, assim como o Mamma Mia! também começou como uma experiência. Ninguém sabia - isto é, 55 milhães de pessoas ou algo assim já assistiram, é alucinante. 


Como você avalia o cenário da música digital para os músicos, atualmente?
Acho que os serviços de streaming, como falei em minha palestra hoje, YouTube, por exemplo, é um deles e deveria pagar do mesmo modo que assinantes especiais pagam pelo Spotify. O formato digital não decolou para os compositores. E outra coisa que acho que os assinantes premium deveriam fazer é o seguinte: por exemplo, sou um assinante premium e clico em algum artista 50 vezes em um mês, por 10 dólares. Enquanto isso, a filha do vizinho clica 800 vezes no Justin Bieber e ela também paga 10 dólares. E todos somos colocados num mesmo pacote. Isso signifca que os artistas que eu escuto ganham tão pouco, em comparaçao ao Justin Bieber. Isso é muito injusto na minha opinião. Por que tem que ser diferente de quando saíamos para comprar um CD? Aquele dinheiro ia diretamente para as pessoas que tinham feito o CD. Deveria ser do mesmo jeito no streaming. Me sinto bem desapontado em relação a isso.


sábado, 29 de março de 2014

Os 40 anos de sucesso do ABBA

O ABBA completa agora em abril 40 anos. Na verdade, o quarteto surgiu um pouco antes, mas o grupo, com esse nome - e já com a ideia de grupo - começou sua jornada de sucesso no dia 6 de abril de 1974. Nessa data, venceram o Eurovision Song Contest, que naquele ano foi realizado em Brighton, no litoral sul inglês. (Dificilmente algum fã do ABBA desconhece o Eurovision: trata-se de um concurso anual de canções transmitido pela televisão, com participantes de vários países europeus).


Mas o post de hoje não é sobre nenhuma curiosidade ou lançamento do ABBA. Quero apenas compartilhar algumas lembranças com outros fãs. Há pouco mais de 20 anos, comecei minha jornada pessoal como fã do grupo. Tinha 14 anos. Foi antes do Natal de 1993, quando vi na TV o comercial da coletânea ABBA Gold. Eram só alguns segundos de imagens e músicas, mas me chamaram a atenção de forma tão intensa que imediatamente pedi o disco de Natal. Na época, CD ainda não era algo comum no interior de Minas, onde eu morava. De fato, o compact disc estava entrando no mercado brasileiro, mas não havia se popularizado por completo ainda. 


Naquele Natal, ganhei de presente meu LP duplo ABBA Gold (uma pequena fortuna, já que discos duplos, ainda mais lançamentos, eram caros na época). Lembro bem da minha alegria ao abrir o presente. Comecei a ouvir os discos e, durante mais ou menos uns 8 meses seguidos, SÓ ouvi ABBA Gold. Dia e noite, sem parar. Encantei-me pelas fotos dos encartes, pelas melodias e pelas vozes, já que naquela época eu ainda não falava inglês e, portanto, não entendia as letras das canções.

Mas o que eu realmente não sabia, na minha total ignorância em relação ABBA, era que aquela coletânea já estava fazendo sucesso nos quatro cantos do mundo, desde que fora lançada no ano anterior. Chegando com um pequeno atraso no Brasil pela Globo/Polydor, ABBA Gold também vendeu feito água aqui.


Nos anos seguintes, me dediquei com afinco a estudar e aprender inglês. Era a única forma de conhecer a história daqueles quatro suecos, já que era quase impossível obter qualquer tipo de informação sobre o ABBA (ainda mais em português!) naquele começo dos anos 90, ainda pré-internet.

Saía batendo de porta em porta, à procura de pessoas que, porventura, tivessem algum disco velho do ABBA. Procurava incansavelmente em sebos, visitava cidades vizinhas, arquivos de rádios, me cobria de poreira dos pés à cabeça, na caça de alguma pista do grupo. Era muito esforço para pouco resultado. Encontrava disquinho aqui, uma coletânea ali, mas tudo muito difícil. Nessa época já me chamavam de "o menino do ABBA", num tom meio piadista. "Por que diabos esse menino vive atrás desse grupo esquisito e esquecido?" era o pensamento das pessoas.

Vale lembrar que no final dos anos 80/começo dos 90, ABBA era considerado algo musicalmente condenável, execrável e já tido como morto e enterrado. Mas aos poucos o sucesso de ABBA Gold foi se alastrando pelo mundo e contagiando artitas da época como Erasure e Kurt Cobain. Diretores australianos começaram a produzir filmes que usavam trilha sonora com canções do ABBA. De brega, o grupo virou cult e começou a ser reverenciado por uma nova geração de fãs.


Aqui no Brasil a coisa nunca foi muito significativa. De forma geral, a mídia brasileira sempre tratou o ABBA com displicência, superficialidade e deboche. Se na Europa o grupo voltou a ocupar a primeira posição das paradas de sucesso - graças ao ABBA Gold - aqui no Brasil, apesar das vendas crescentes, o grupo permanecia algo para ser apreciado entre quatro paredes, às escondidas mesmo. 

Coloquei anúncios em diversas revistas, buscando outros fãs do ABBA, e comecei a me corresponder com outros admiradores do grupo e a trocar material. Com o surgimento da internet - e a evolução gradual do meu inglês - comecei a ter acesso a muitas informações. Fui traduzindo textos, juntando recortes, fazendo pesquisas... Ao longo dos anos, me dei conta de que havia acumulado material suficiente para escrever uma biografia do grupo. E escrevi, meio por hobby mesmo, mas sem grandes expectativas. 


Mais de uma década depois, em 2007, um editor de Curitiba, Sandro Bier (a quem serei sempre grato pela confiança e interesse) apostou no projeto e publicou meu primeiro livro, Made in Suécia - O paraíso pop do ABBA. Pela primeira vez, uma biografia do ABBA era publicada em português. O fato me encheu de orgulho, claro. Sempre achei estranhíssimo que nunca houvesse existido no Brasil um só livro sobre o ABBA.

Apesar de todas as dificuldades, sou extremamente feliz pela conquista e por ter prestado minha pequena homenagem ao quarteto cuja música me acompanha desde a adolescência. Se a repercussão do livro aqui no Brasil não esteve à altura do que o ABBA merecia, os resultados também não foram desastrosos. O que eu pretendia era transformar meu projeto em realidade. Meu objetivo foi alcançado. E isso eu devo também a vários outros fãs do ABBA que, ao longo desses anos, se tornaram meus amigos e me ajudaram. O livro é também resultado da generosidade e amizade dessas pessoas.

A revista Rolling Stone publicou uma crítica positiva e a embaixadora da Suécia, Annika Markovic, me convidou para um jantar de gala em homenagem aos 50 anos da Copa de 1958. A jornalista sueca Åsa da Silva Veghed também foi convidada para divulgar seu livro sobre música brasileira. Foi um intercâmbio no mínimo curioso: um brasileiro divulgando a música sueca e uma sueca divulgando a música brasileira.

Em 2011, lancei meu segundo livro, Mamma Mia!, pela Panda Books. Dessa vez, a editora me encomendou uma versão 'turbinada' e ampliada do livro anterior, com atualizações, algumas correções e mais informações. Foram meses de pesquisas e escrita, até o projeto ser concluído. E pela segunda vez, uma biografia em português do ABBA foi escrita por mim. No ano seguinte (finalmente!) um livro sobre o ABBA foi traduzido no Brasil. Apesar da demora, fiquei feliz por ter 'aberto o caminho'. E este ano, um outro livro traduzido (do biógrafo oficial do ABBA, Carl Magnus Palm) está sendo prometido para o mercado brasileiro. 

Aos poucos, os brasileiros começam a ter mais contato com o ABBA de verdade. As matérias, antes rasteiras e jocosas, começam a dar espaço a informações mais precisas e elogiosas. Como o quadro de Nelson Motta para o Jornal da Globo do último dia 28 de março:
"Houve um tempo em que gostar do ABBA, daquelas músicas bregas, daqueles cabelos e roupas ridículos, pegava muito mal em qualquer papo musical. Mas o tempo fez justiça às ótimas melodias, aos ritmos alegres e aos excelentes vocais do ABBA e garantiu à banda um lugar de destaque no mundo do pop globalizado." (Nelson Motta)

sexta-feira, 14 de março de 2014

2014 recheado de lançamentos

Os fãs do ABBA - pelo menos os europeus - não têm do que reclamar este ano. No dia 6 de abril de 2014 o quarteto comemora os 40 anos da vitória de Waterloo no Eurovision Song Contest. A canção se tornou hit instantâneo ao redor do mundo, chegando ao topo das paradas na Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Holanda, Noruega, Suíça e África do Sul, além de alcançar a sexta posição da lista norte-americana. 


No aniversário de 50 anos do Eurovision Song Contest, em 2005, Waterloo foi escolhida como a melhor música da cultuada competição europeia. A canção foi um marco não apenas para o ABBA, mas também para o programa. 

Para comemorar todo esse sucesso, que já dura quatro décadas, uma série de lançamentos (entre itens inéditos e reedições) chega ao mercado. As celebrações começaram ano passado, com a volta de Agnetha à mídia, após o lançamento de seu álbum solo A, e a inauguração do museu do ABBA, em Estocolmo.

Edições Deluxe dos álbuns originais do ABBA também foram lançadas. A de Waterloo (única que faltava) coincide com as comemorações deste ano. Três livros de peso também marcam presença no rol de lançamentos especiais. Um é dedicado à parte visual e os outros dois, à textual.


O primeiro é a edição revista, atualizada e ampliada de Bright Light Dark Shadows, de Carl Magnus Palm, biógrafo oficial do ABBA. Considerado o melhor, mais acurado e detalhado livro sobre o quarteto sueco, é a bíblia do ABBA. Conta a história não apenas da banda, mas da vida de cada um dos integrantes, antes, durante e depois do grupo. Além disso, traça um excelente panorama da música sueca.


O segundo, ABBA  The Backstage Stories escrito também por Carl Magnus Palm, narra as lembranças de viagens de Ingmarie Halling, supervisora de figurino e maquiagem do ABBA, nas turnês de 1977, 1979 e 1980. Além de fotos não publicadas anteriormente, das turnês do ABBA pelo mundo, o texto disseca os aspectos da imagem da banda: roupas, capas de discos, clipes. Também destaca as histórias das pessoas que trabalharam nos bastidores ao longo da carreira do grupo, colegas que ajudaram a criar a identidade visual do ABBA para o público.


O terceiro livro, que vem causando grande expectativa entre os fãs do grupo, é ABBA  The Official Photobook, a ser lançado em abril deste ano (para coincidir com o aniversário da vitória no Eurovision). Produzido pela Max Ström, editora líder da Escandinávia em livros de fotografia e uma das maiores da Europa, a obra já é descrita como um dos mais prestigiados livros de música. Além disso, ainda conta com a colaboração de Benny, Björn, Agnetha e Frida, que contribuíram com o prefácio e comentários sobre algumas das fotos. 


O livro traz imagens da era pré-ABBA, dos anos de formação da banda e da explosão mundial, assim como fotos particulares ou simplesmente não publicadas, de bastidores, fotos alternativas de divulgação, de capas de discos e de turnês. Fotos recentes dos ex-integrantes também entram no livro. "Estou maravilhada com todas essas fotos! Algumas estou vendo só agora, pela primeira vez. O livro é mesmo uma viagem através das lembranças", disse Frida.




Pena que, como de costume, os fãs brasileiros fiquem de fora da grande maioria desses lançamentos. O jeito é recorrer às importações, apesar dos preços não muito acessíveis. Mas uma luz brilha no fim do túnel: de acordo com o site oficial de Carl Magnus Palm, uma edição em português de ABBA – The Story deve ser lançada aqui no Brasil no final deste mês. No entanto, como é de costume, nada tem sido divulgado na mídia brasileira. Em matéria de ABBA, ainda estamos engatinhando. Mas a euforia na Europa é tanta que, felizmente, hoje em dia pelo menos uma coisa ou outra acaba chegando por aqui. Cruzemos os dedos!


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...